Nivelamento das almas
Uma goteira eleva o nível do grande lago mas nada difere-se aos olhos atentos do observador. Nada mudou. Ah luzes,quanta cegueira provocas em teu estalar imediato onde tudo é escuridão. deixar as coisas como estão é não reverenciar as almas iluminadas. Sobram ossos e o que são ossos senão a dura realidade. Palavras são como flechas e muitas flechas se perdem no vazio. Um grito desesperado nas altas casas, casebres lá em cima; não sei! A imagem refletida no espelho, não a ouço, ela não emite som algum, finjo não ouvir. Nada compreendo perfeitamente e o mundo apresenta-se enigmatico. Um choro de criança; sou eu. Um gemido triste; sou eu. Esfomeados no Sudão e no nordeste brasileiro; sou eu. Morro chorando, morro no ódio, morro de fome em lugares distantes. Sou incapaz. Suicido-me quebrando o espelho e dando adeus ao mundo. O tufão chegou cedo demais. Sou um ser sem ilha boiando como um cadaver. Afasto-me de Deus e a noite chega. Milhares andam por sobre as aguas. Continuo boiando observando a terra firme e lá no fundo vejo vagar grandes verdades, fecho os olhos e sem que eu posso fazer algo vejo as ondas levarem meu cadaver.
Cafa, outubro de 1998.
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