segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

                                  Um velho louco e um jovem sem memória

                                                                                            “Tudo o que morre teve antes uma
                                                                                   espécie de meta, um tipo de atividade e
                                                                                                      nela se desgastou.”
                                                                                                                               Kafka

        Quando finalmente um ônibus se aproximava chamando sua atenção, ele não soube precisar aonde iria, talvez a lugar algum, de si para si ele conjecturou em uma espécie de intuição quase animalesca, instintiva diria, e tudo fazia sentido dentro da possibilidade de ficar ali parado ou adentrar no ônibus ou mesmo seguir a pé, não faria a menor diferença. O ônibus para e abre a porta. Estava parado nesse ponto a cerca de duas horas, naquele deserto árido onde as únicas paisagens eram, como em fotos, uma velha casa sem telhado e a grande estrada infinita e deserta e além dessa paisagem morta, como um picante tempero, o sol lhe ofuscava a visão. O motorista do coletivo abre automaticamente a porta chamando-lhe atenção, então ele resolve  entrar já enfiando as mãos nos bolsos atrás de algum dinheiro para a passagem. Ele não recordava em nada sobre sua vida, era como se estivesse surgido ali da forma em que se encontrava: jovem de vinte e poucos anos, bem vestido e de olhar perdido com testa franzida. Subiu a escada do coletivo em um movimento mecânico, fitou o motorista como um caipira sério e sem que firmasse seu corpo com as mãos em algum ferro ele sente o brusco movimento do veiculo lhe lançar de bruços no corredor, o motorista não percebe o pequeno acidente e acelera ao mesmo tempo em que cantarola uma velha canção. Ergueu-se e sem lançar julgamentos sobre o fato procurou um lugar para se sentar. “Meu deus! Que espécie de animal é este? Cuidado meu rapaz, muito cuidado antes que tua própria estupidez te mate!” Foram as palavras de um velho homem que trazia consigo dois baldes e uma lebre aprisionada em uma gaiola muito pequena onde o bicho mal podia se mexer. O rapaz perdeu-se a observar o interior do veiculo ao mesmo tempo em que uma estranha sensação lhe atormentava, da mesma forma que uma granada que é lançada e falha atormenta um soldado em uma guerra. Enquanto não explodia continuou a observar as imagens que seus olhos captavam e que se perdiam no fundo de sua alma. Tudo lhe soava familiar ao mesmo tempo em que ele não conseguia pronunciar uma única palavra, e o que seriam palavras para alguém que não conseguia pensar, senão ruídos incompreensíveis?Quem sabe esse jovem, em seu passado, poderia ter usado seu cérebro de forma coerente, mas naquele momento ele não passava de alguém sem memória procurando algo que nem ele mesmo podia supor o que era. O velho com os dois baldes e com a lebre engaiolada sentou-se ao seu lado e antes mesmo de se acomodar começou a falar ao jovem as seguintes palavras: “Sabe meu filho, pra todo lugar que eu vou carrego comigo esses dois baldes vazios caso eu venha a encontrar alguma coisa que me sirva e assim já tenho onde carregar, fazem oitenta e dois anos que não encontro nada que me interessasse, além dos próprios baldes, tenho noventa e sete anos e, na verdade, acabei a pouco tempo, encontrando essa lebre,mas como ela é um bicho muito rápido e não reconhece dono tenho que a manter aprisionada.” O velho falava enquanto o rapaz o ouvia atentamente, mesmo sem entender nada ele havia ficado fascinado pelo som que a boca do velho emitia, da mesma forma que uma pessoa qualquer aprecia uma música mesmo sem entender nada de acordes, timbres e escalas. E o velho prosseguia: “Você é um jovem e sabe parar para ouvir um velho vivido falar e mais: o teu silêncio não me engana, és um sábio, pois só os sábios sabem ouvir. Seus olhos são de alguém que procura algum defeito na forma em que esse ônibus foi projetado...” Mantinha um olhar sério e permanecia tácito ante o som da voz daquele velho que lhe trazia um conforto que ele próprio não podia entender em sua inércia total. O ônibus finalmente chegou a uma pequena vila e de dentro dele, as pessoas que estavam próximas a um comércio, viram descer dele o velho eloqüente e um jovem calado seguindo seus passos.
                                                                                                                        Cafa, 1997.

2 comentários:

  1. de 97 pra cá, acredito que o velho e a lebre já não estejam mais por aqui.

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    1. o velho deve ter descoberto que o rapaz realmente não atinava e então deu um "perdido" nele indo,com certeza, procurar seus valores por outras bandas...por ouro lado todos vivem no "escritor" que os criou...o mesmo escritor que perdeu o controle sobre suas crias.

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